domingo, 13 de abril de 2008

Faces da Morte

Existem temas que não são agradáveis e, apesar de fazerem parte de nosso cotidiano, procuramos evitar em nossas abordagens.
No final de minha juventude, confrontando com início das responsabilidades da vida adulta, tive muitos pesadelos e procurei transportá-los num texto, que depois consegui publicar pela extinta editora Ateniense, ao qual dei o nome sugestivo de "A Nave dos Mortos".
Confesso que hoje minha autocrítica vê algumas falhas no enredo e que achei por bem não abordar mais este tema; quando veio a inspiração de criar este blog, em pleno início de manhã de quarta-feira de cinzas, a primeira regra que me impus foi: nada de falar sobre morte.
Assim como o regime que vez ou outra quebramos, não resisti e fiz este texto. Vamos dizer que ele seja igual ao pastel gorduroso e o churro de doce de leite de minha dieta. A gente sabe que faz mal, mas faz, apenas para depois voltar com mais força ao nosso ideal.
Lembro-me de um comentário de meu tio, o historiador e pesquisador Luis Soares de Camargo, sobre a morte nos tempos atuais: "hoje as pessoas morrem sempre à noite e sozinhas...".
Pois bem, estamos no início do outono, que seria o anoitecer das estações climáticas, época que as folhas começam a cair e o tempo a esfriar; tempo de reflexão, de elevação do estado de espírito após a quaresma e a comemoração da páscoa cristã.
Vamos dizer que seja um momento oportuno para tratar do tema e, como não poderia deixar de ser, a morte da pequena Isabella vem a se somar ao rol de aflições que nos atingem nos tempos atuais, que incluem ainda a violência dos constantes roubos e assaltos.
Porém, todas estas preocupações se desfazem diante de uma sentença de morte; não são todos os países que adotam a pena capital, mas é certo que a natureza - ou o Criador - dotam cada ser de um tempo único e os avanços da medicina nem sempre permitem reverter a situação mas tão somente dar uma estimativa sobre o tempo de vida que nos resta.
O jornalista alemão Walter Schels junto com a fotógrafa Beate Lakotta percorrerão alguns hospitais da Alemanha e contataram algumas pessoas que estavam tendo o seu veredito de morte.
A proposta apresentada foi de fazer a foto naquele dia e depois da morte consumada; apesar da abordagem direta e fria, muitos toparam participar, deixando-nos as imagens de rostos que nos olham e, a exemplo dos antigos romanos, parecem nos dizer "CARPE DIEN" (aproveite o seu dia):











As imagens acima são de Edelgard Clavey, 67 anos. A primeira foto é de 05/12/2003 e a da morte em 04/01/2004, portanto um mês depois.











Este é Beate Taube, 44 anos, 16/01/2004 e em 10/03/2004.












Heiner Schmitz, 52, 19/11/2003 ao receber o diagnóstico e morto em 14/12/2004. Dizia ser atleta e que jogava futebol, porém fumava.











A história de Gerda Strech, 68 anos, não foi muito diferente. Após trabalhar toda a vida numa fábrica de sabão, criando os filhos sozinha, conseguiu aposentar-se e, ao saber da doença, ironizou dizendo que o câncer veio junto com o fim do trabalho. A filha procurou consolá-la, porém ela disse que seu sofrimento seria breve, e de fato foi: fotos em 05/01/2003 e 14/01/2003.

Depois de tantas mostras de nossa brevidade terrena, acredito que devemos refletir seriamente sobre nossas prioridades e nossas relações com a família e amigos.

Estas fotos fazem parte da exposição Life Before Death, em exposição de 09/abril a 18/maio/2008 na galeria Wellcome Colletion de Londres.

Para quem quiser saber mais:
http://www.guardian.co.uk/socyety/gallery/2008/mar/31/lifebeforedeath?


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