quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Guatemala, Afeganistão, Brasil


Fim de semana longo, com um feriado de carnaval pra lá de convidativo ao prazer da leitura: pouco sol, muita chuva e filhos pequenos interessados apenas em brincar com o videogame.
Entre uma corrida de Gran Turismo e outra, passando por batalhas pelas Filipinas na Segunda Guerra, sem contar as ações politicamente incorretas de se roubar carros, encontro um tempo para colocar em dia a leitura das publicações semanais e mensais.
Tento a reflexão que me é possível, misturando sons dispersos de tambores com gritos de uma disputa pela posse do controle do jogo, além do infalível pedido de ajuda: "Paaai!" Não adianta eu perguntar o que querem, não haverá resposta, a única solução será levantar-me e ver o que se passa.
Encontrei meu espaço na mesa da cozinha, lendo as revistas Veja e National Geografic, tendo minhas conclusões entre um gole e outro de iogurte.
Concordo que esta não é uma situação habitual para este tipo de devaneio, normalmente as mesas de botecos se prestam melhor para este tipo de pensamento redentor, onde o álcool mostra as soluções para todos os tipos de problemas, desde a escalação do time que foi para a segunda divisão até a salvação do país.
Pois bem, foi neste último item que me detive, mas confesso que não foi por opção, somente aconteceu.
Na National duas reportagens se destacaram, sendo a primeira a da Guatemala, país da América Central, para onde milhares de latinos se dirigem com o objetivo de entrar no México e deste para o sonho americano.
O que mais me chamou a atenção foi uma foto de uma cidade na divisa com o México; a população local está prosperando com a indústria da travessia ilegal. Vê-se um jovem com uma moto adaptada para uso de táxi; ele veste-se com roupas novas e sua expressão é simples, o que denuncia ser recente a sua situação de relativo conforto econômico. Também se observa a presença de caminhonete, sinal óbvio de status para qualquer latino que se preza.
Pesquisando um pouco mais sobre a região e a própria cidade em si (viva o Google!), nota-se que a cidade é mantida apenas pelas condições favoráveis atuais e não se percebe qualquer esforço para a sustentabilidade futura.
"El Carmen" está na Guatemala, mas poderia estar em qualquer outro país da América Latina; existia uma antiga piada sobre indústria do móvel colonial em Itatiba; ela diz que assim o camarada que "enrica" com a fabricação de móveis suas primeiras providências são arranjar uma amante e comprar uma caminhonete. Inveja dos que não "enricaram" à parte, a verdade é que este tipo de indústria entrou em declínio nos anos 80 e hoje sustenta-se com móveis muitas vezes feitos em outras partes do país.
E o Afeganistão ? Dele vêm várias fotos numa reportagem emocionante sobre os hazaras, "povo laborioso" como diz a reportagem; depois descubro que um membro desta comunidade é uma personagem do badalado livro "O Caçador de Pipas" ( que cacete, não li este livro e agora que me vem um idéia genial descubro que já fizeram algo a respeito; tudo bem...).
Me detenho na imagem de um menino de 15 anos; ele fala sobre os talibãs que queimaram sua escola, mas ele persiste e diz que vai continuar seus estudos e se formar advogado. Não há ressentimento, nem resignação em suas palavras, nada que lembre os sentimentos da piadinha latina contada acima.
"Onde erramos ?" Na cozinha vazia não obtenho resposta.
Passo para a Veja, suas páginas amarelas trazem justamente uma reportagem sobre os latinos, onde a diretora de um instituto de estudos discorre sobre o povo deste continente.
Ela faz suas analogias para exemplificar seu ponto de vista; ao dizer sobre a descrença de muitos sobre o crescimento econômico, ela diz que "é como se houvesse uma festa e eu não fosse convidado". Heis uma latina "da gema"; sempre a esperar que lhe convidem, nunca tendo o trabalho de organizar a festa.
Lembro-me de uma antiga reportagem da televisão, onde entrevistaram uma moradora de Governador Valadares e a mesma afirmava que sua região possuía uma elevação em relação às demais pois seus habitantes emigravam para os Estados Unidos; em sua simplicidade, permeada pela ignorância própria dos acomodados, ela não considerava a possibilidade de fazerem eles mesmos um país melhor.
E no que isto tudo se traduz ?
Não tenho tempo para minhas conclusões, pois meu filho de 07 anos chama insistentemente para ajudá-lo a tirar uma "licença de corrida", precisa fazer um trajeto em 3 minutos e sempre estoura o tempo; confesso que tentei ontem o dia todo e não está fácil, sempre utilizo cerca de 03 segundos além do estabelecido. Sua cara de aborrecido me convence a deixar o iogurte e o teclado de lado.
Sei que apenas com muita dedicação e treino conseguirei vencer estes segundos.
Quanto aos anos de atraso de nossa américa latina, em especial do Brasil, deixo para quem bebeu muita birita neste carnaval (sim, eu votei no Lula...).

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